15 maio 2015

primavera

Não entendo esta Primavera.
Coração que suspira não chega lá, será preciso contrariar os ditos populares. Fechar a porta de casa e ficar em frente ao espelho, cozinhar qualquer coisa a seguir e comer sem fome. Alimentar um coração sem esperança, preencher os buracos com bolinhas, açúcares. Ir esvaziando o tempo em coisas que pouco importam, esperar um toque na porta de entrada. Esperar um som de alarme. Respirar nervosamente, esperar o calor do corpo e ter medo da recepção. 
Decidi que vou esconder o telefone por baixo de almofadas, as da sala funcionam para isso.

10 março 2015

em debanda

Os Deuses, em debandada, fugiram-te para o peito. Esconderam-se. Sente-os.
Lágrimas ao ouvir isto.
Agora pensa que podes sempre recorrer ao teu próprio peito. Sempre.
As gotas salgadas que escorrem pela bochecha... humilham-te envergonhadamente.

11 janeiro 2015

O pintor

O pintor, seja ele quem for, enquanto pinta, pratica uma teoria mágica da visão. Ele terá de admitir que as coisas passam por si ou que, segundo o dilema sarcástico de Malebranche, o espírito sai pelos olhos para ir passear pelas coisas, uma vez que não cessa de ajustar nelas a sua vidência. (Merleau-Ponty, 1960, O Olho e o Espírito, p.27)

15 junho 2014

Sinto um peso na nuca de carregar um fardo que não é meu. Ouço a gaivota incomodada, expele agressivamente a raiva pelo bico. Apesar do desconforto que é ouvi-la, quero ser como ela. Poder carregar o peso, mesmo que roubado - do mar; de outro bico - poder suportar essa carga conscientemente. Pronto, talvez a personificação se tenha desviado por meios desmedidos de exagero e excentricidade. Ou talvez não e as palavras sejam tão reais e verdadeiras quanto eu aqui sentado, meio torcido, à espera de um chamamento que sei já não chegar da mesma altitude. 
E agora de repente as palavras e as letras deixaram de ter qualquer impacto, pois nenhum signo desses será, jamais, genuíno. Como a raiva que ouço da boca da gaivota por carregar o peso, antes de o engolir. Engolir o peso, incorporá-lo sem que nunca consiga sair. Quão visceral se terá tornado isto agora? Nada, tendo em conta a nutrição, Tudo, pesando mais de metade em elementos dispensáveis.

31 maio 2014



Sincronia, dessincronia, força, frustração, cansaço, angústia, impotência.
Tentativa, esforço, potência, cansaço, frustração.
Sintonia, harmonia, hábito, vício.
Desconstrução, abstração, ilusão, difusão, encaminhar a desencaminhar. 

01 abril 2014

pózinho

Era o pózinho amarelo. Pois é, caíam a largar esse pózinho. Só um pózinho. O interesse vem desse próprio diminutivo. 

gotas

Consegues distinguir as gotas que caem? Eu consigo ver melhor as pequenas que embatem estupidamente na cara sem a molharem. Fazem sentir uma pequenez insuportavel, a nossa propria mesquinhez a cair-nos em cima. Que sina... Morrerei mais estupido do que quando nasci. Com peso imaterial.

12 dezembro 2013

não rima

A sentir o mesmo, as pessoas à volta parecem cada vez mais inteligentes. Acabar sentado a olhar, só observar, porque apenas olhar seria morrer. Acabar sentado, a fazer o cinzento sinuoso dormitar. Dormitar rima. Acabar não. Finalizar pressupõe uma continuacao, uma fruição de algo que perdura, em tempo indeterminado, longo ou curto. Que perdura... Acabar não. Não é sinónimo. Não. Acabar não rima. 

08 dezembro 2013

dia 29 de outubro de 2012

A perversidade maliciosa com que me chamou, apontou, grunhiu e tocou numa pequena mancha vermelha e brincou aos círculos com o indicador direito para de seguida, com o olhar colado no meu, de forma a que não me desviasse, levar o dedo à boca e lamber, fez um sorriso assustador. Não me esqueco.
Noto pelo silêncio do armazém que a pequena criançaa, sua refém, tinha desaparecido e que ao fundo na penumbra do canto uma mancha branca amontoada ressalta a minha vista.

18 novembro 2013

dia quatro de julho

A escova e a lâmina estão no lavatório, por baixo do espelho. O perfume e o oxigénio. Tudo igual, menos os conteúdos. Já não há muito, mas isso porque a importância das coisas agora reside unicamente no preenchimento do espaço, para que nada se sinta solitário. Dentro de uma gaveta estão dois pares de óculos, talvez para ver melhor o fundo vazio. O espaço inexistente a certa dimensão.



21 outubro 2013

07 setembro 2013

21 novembro 2012

A progressão da confianca e insegurança ao querer menos forca dos pes contra o chao. 
O ficar mais leve de espírito como procura de um emagrecimento do problemático físico que desilude.

06 novembro 2012

02 novembro 2012

Vi um vê no céu. Vi as luzes reflectidas afunilar, quem as tiver visto como eu, percorreu-as e procurou com dificuldade o ponto mais agudo. 
Consegui vê-lo.