17 abril 2012

23 março 2012

irreversível

Era irreversível, porém dentes ainda não lhe tinham cravado a pele do peito. Nele, no peito, existe uma marca apenas, cuja importância é diminuta.

Derramou-se líquido por cima das cabeças e pés, benzeram-se, pela sua existência, corpos e mentes por se terem mostrado abertos um ao outro, sem trejeitos ou línguas dobradas, salivas cuspidas ou projectadas. Nem atabalhoadas se tornaram.
O sol aqueceu cabelos, as relvas, as camas e toalhas estendidas. A terra, aquelas ervas e verdes, serviram de meio de brincar. Brincar de correr daqui para ali, brincar de gritar, acusar, rasgar, para conversas diferentes em saltos pelas águas e exalar suspiros satisfeitos, ora todos o sabem... do que o sol é capaz.
Impressões de vida, não falo de fotografias, mas de marcas douradas numa casa de corpos abraçados. Beijados calorosamente por veias ensanguentadas de um azul forte. Daquele que sabemos existir no mar, falo de histórias vividas, ai! por aquelas mercadorias, commumente apelidadas de corpos.

18 setembro 2011

deixar de estar

Um pulso partido pelos dias forçados. Esta é a história de um homem cuja vida caiu quando a cama deixou de estar feita.
A maçaneta da porta de entrada caíra mais cedo nesse dia. Sim, ja costume era cair e mais tarde ser arranjada. Estava cá fora e rapidamente reparou no sucedido. Pois, no alpendre, daqueles que se vê nas casas de campo com um pequeno portão quente, rústico, que chia com a abertura, lá estava a pequena maçaneta redonda, de cor térrea, rodando em círculos movimentada pelo vento.
Sacudia a manta quando, entretanto, reparou: Na maçaneta sim. Na solidão também.
Arrasta-se, lamuriando entristecidas canções daquele famoso dito tempo. Tempo de ser feliz, que passou, por todos os lados, rodeando-o daquilo que de bom há, talvez ao alcance de todos.
Não se dá por ele pensando em arrependimentos profundos, nem futilidades banais. Numa analogia de preto e branco, tradicional a sua vida foi, sem grandes preocupacoes ou familiares desilusoes, tirando as ocasionais perdas que nunca a vida evitou trazer. Perdas essas ocasionais, importantes, ultrapassáveis porém.
Os cães ladraram, a gata fugiu, os pássaros sussurraram quando a vizinha gritou. Gritou. Suplicou por piedade, chorou gritando. Soluçou, saboreando as suas próprias, dolorosas gotas, berrou lá de dentro, afligindo em socorros, ave marias e nossos senhores.
A maçaneta estava caída e em voltas envolta estava ainda. Sua vida em espiral se tornou quando, perto da sua cama desfeita, a vizinha que gritou de caras deu, com a sua pacata, protectora amiga, incontrolávelmente quieta, pacífica, desmaiada talvez... Certamente horrorizado, ultrapassada a maçaneta, dentro, imóvel, especado em sua casa, tranquilo homem deixou de ser e lágrimas verteram numa emoção para a qual a vida nunca preparou. A manta que estendida ficara, caiu. A maçaneta tocada não precisaria de ser para que novamente perdesse o seu lugar, o vento dela conta tomou uma última e derradeira vez, pois daquela casa ninguém mais saiu, ninguém mais foi dono, que o vento que por ela entrou.